Para a maioria das pessoas, ao se falar de economia a primeira imagem que se vem à mente é aquela representada por números, cifras, modelos matemáticos complexos que são muitas vezes explicados por profissionais, notadamente economistas, em uma linguagem pouco compreensível razão porque a sociedade passou a denominá-la, até de forma pejorativa, de “economês”.
Porém a economia está presente na vida das pessoas e interage com as mais diversas áreas do conhecimento, pois a razão de ser da dessa ciência é o estudo da busca de caminhos voltados ao atendimento das necessidades dos indivíduos diante da limitação de recursos que, dependendo da situação e do local, podem ser naturais, financeiros, materiais, humanos ou intelectuais.
Cabe ressaltar que, a História da Civilização Humana é conseqüência de um contínuo e permanente processo dialético que pode ser é expresso pelos movimentos culturais e políticos decorrentes de uma dinâmica interpretação do universo e do contexto social. Esse processo implicou em uma contínua transformação dos usos, costumes e valores da sociedade permitindo que os dispersos agrupamentos humanos, induzidos por suas contradições e questionamentos da realidade, abandonassem as suas cavernas e se transformassem na moderna sociedade contemporânea da informação que, também, encontra-se submetida ao seu próprio processo dialético.
A partir da compreensão do sentido do processo dialético é possível se perceber que a sua dinâmica induz transformações e formas diferenciadas de se ver o universo atingindo indiscriminadamente diversos segmentos das ciências tradicionais possibilitando, assim, o surgimento de novos campos de estudo que até então não eram percebidos, mas que sempre se fizeram presentes no contexto da sociedade. Pesquisas e estudos em um número significativo estão sendo desenvolvidos no campo da Química, da Física, da Biologia e Biotecnologia, da Medicina, da Farmacologia, do Direito, da Geopolítica, da Filosofia e da Economia, apenas para citar alguns campos de estudos.
Essas iniciativas estão induzindo a revisão de vários paradigmas e criam estímulos que permitem ter uma visão de mundo mais diferenciada do que aquela que tinham os pensadores clássicos; não que estes tivessem uma visão limitada da realidade do seu tempo, apenas não dispunham de instrumentos que hoje se encontram disponíveis para que os atuais pesquisadores de diversos campos do conhecimento possam realizar os seus estudos e experimentos em um contexto de grande dinamicidade.
Nesse cenário de contínuas transformações verifica-se a presença grandes fenômenos e desafios contemporâneos que, em sua maioria, têm origem em problemas de natureza econômica e envolvem diversos agentes na busca de soluções que sejam adequadas à realidade local e nacional que em variadas escalas estão associadas à geopolítica mundial. Alguns exemplos podem ser mencionados: O fluxo migratório mundial em busca de melhores condições de emprego e de renda; a busca de fontes de energia alternativa diante da possibilidade de exaustão de recursos provenientes das fontes fósseis e as conseqüências advindas do impacto poluitivo no meio-ambiente; da mobilidade urbana e carência de infra-estrutura econômica e social nos países periféricos gerando violência e segurança; iniciativas direcionadas à inclusão social de populações situadas abaixo da linha de pobreza; a ausência de controle sobre fluxo de capital financeiro circulante no mundo ocasionando a indesejada volatilidade e impacto nos preços dos bens e serviços.
No entanto, apesar da sua importância e presença nas relações humanas, é possível se perceber que a sociedade, de forma geral, vê a economia como uma ciência de difícil compreensão. Isso ocorre em virtude de uma predominância maciça de complexas fórmulas matemáticas, simulações estatísticas e análises gráficas, projeções econométricas que, nos últimos tenderam a enfatizar aspectos notadamente financeiros em detrimento dos fenômenos relacionados à própria geração de bens e serviços para atender as variadas demandas da sociedade, que é o objeto fim dos estudos econômicos.
Partindo dessa premissa cabe se perguntar: Ora, se a economia se faz influente em diversos fenômenos que afetam o comportamento da sociedade nas suas decisões cotidianas porque esta mesma sociedade não consegue entender a sua importância? Será que as técnicas utilizadas para o estudo da economia estão correspondendo à realidade ou um revisionismo se torna necessário?
Para buscar responder a essas indagações é importante se perceber que qualquer abordagem investigativa objetivando analisar e interpretar os fenômenos de natureza econômica deve obedecer a duas vertentes: A vertente quantitativa e a vertente política ou sócio-comportamental, cada uma delas contemplando variadas escolas de pensamento.
Em sua vertente quantitativa a abordagem investigativa deve buscar analisar e interpretar os fenômenos de natureza econômica se aproximando das ciências exatas a partir da utilização de modelos matemáticos, estatísticos e econométricos em que a reação dos indivíduos e das organizações na busca da satisfação dos seus interesses obedece a uma conotação mais racional. Essa linha de abordagem se avolumou particularmente a partir do final dos anos 1970 ganhando celeridade com o desenvolvimento de novas técnicas de análise para situações específicas decorrentes do avanço da tecnologia da informação criando, contudo, um excesso de matematização da Economia (KREPS, David. Economics - Current Position, in "Daedalus", American Academy of Arts and Sciences. 1997).
Em sua vertente política ou sócio-comportamental a abordagem investigativa deve buscar analisar e interpretar os fenômenos de natureza econômica se aproximando das ciências humanas (Política, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Direito, entre outras). Utilizam-se, para tanto, teorias que enfatizam aspectos comportamentais e de ordenamento jurídico em que a reação dos indivíduos e das organizações na busca da satisfação dos seus interesses obedece a uma conotação mais política e cognitiva em face de fatores de ordem histórica, cultural e de valores que influenciam usos e costumes. Nesse campo, a identificação de necessidades geradoras de demandas e o desenvolvimento de mecanismos para satisfação de carências pela oferta de bens e serviços correlacionada ao ambiente são essenciais.
No campo acadêmico tem sido comum a ocorrência de debates que buscam fazer prevalecer uma das vertentes sobre a outra. Porém, a realidade demonstra que essas duas vertentes devem coexistir harmonicamente, pois ambas tendem a se complementar e a se interagir em virtude das transformações que se fazem presentes na sociedade contemporânea uma vez que a vida dos indivíduos e das organizações não segue parâmetros somente matemáticos ou somente comportamentais. Para a Economia, a percepção da presença das demandas sociais e sua influencia no comportamento dos agentes econômicos do setor público e do setor privado, se constitui em uma importante fonte para a formulação de planejamentos estratégicos e o estabelecimento de planos de ação.
Um exemplo é a formulação de uma política pública para a redução do déficit habitacional requer a realização de levantamento e tratamento de dados visando o impacto na cadeia produtiva, mas, ao mesmo tempo deve considerar adequação dessa política aos anseios comportamentais do público alvo que se quer atingir, além da própria segurança jurídica inerente a direitos e obrigações. Outro exemplo é a elaboração, a implantação e o acompanhamento de projetos ou no desenho de planos estratégicos pelas empresas em que a percepção de fatores associados aos diversos ramos do conhecimento e bem como seus reflexos na sociedade é condição imperativa e que pode levar ao sucesso ou ao insucesso.
No aspecto geopolítico, consensos internacionais sobre a liberalização comercial, a disciplina fiscal, a regulação financeira, as parcerias entre o setor público e o setor privado, definição de marco regulatório para diversos setores de atividade econômica, entre outras manifestações indica o estabelecimento de um novo paradigma que exige diálogos permanentes entre diversas áreas do conhecimento.
Para finalizar esta sinopse ressalto que para os economistas efetivamente cumprirem a sua função social deverão, antes de tudo, aprender a enfrentar o desafio multidisciplinar e lembrar que o exercício da sua profissão não se limita aos ditos da teoria econômica. Deve ser exercido, sobretudo, dentro de limites institucionais, jurídicos e de valores de um Estado de Direito e não, apenas seguindo uma linguagem cuja sintaxe potencializa as relações de causa e efeito de forma cartesiana. Trata-se assim de revisitar as suas origens históricas com o olhar contemporâneo.